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QUEM DEVE GANHAR MAIS


Por que mulheres ganham mais do que homens para atuar em filmes pornôs?


As estrelas brasileiras do ramo dizem que exposição maior das atrizes e público masculino são justificativas. Kid Bengala afirma que acha diferença injusta

Todo mundo sabe que mulheres ganham menos que homens. No Brasil, a diferença média é de 30%, apontam dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Uma pesquisa do ano passado indicou que elas ganham menos em todos os cargos. Mas há exceções – e uma delas é a indústria pornô.

Enquanto Hollywood debate a desigualdade salarial entre atores e atrizes, o mercado de filmes adultos superou essa defasagem faz tempo: tanto aqui quanto lá fora, mulheres recebem cachês mais altos
.Por Cauê Muraro, G1
Emme White nas gravações de 'Urbex fuckers' (Foto: Divulgação/Sexy Hot)
O G1 falou com atrizes, diretores, produtores e atores para saber por que elas faturam mais (em geral, o dobro). Os principais motivos citados foram estes:

  • as atrizes têm exposição muito maior diante das câmeras, com closes constantes etc. Aliás, a palavra “exposição” foi usada por todos os entrevistados;
  • fora das câmeras, a exposição também é maior: atrizes sofrem mais com preconceito da sociedade em por causa do machismo, estão mais sujeitas a constrangimento. E como se, para elas fazer pornô, pegasse mal, ao contrário dos homens;
  • o público desses filmes é predominante masculino, portanto as atrizes são o principal atrativo;
  • é a mesma lógica da indústria da moda e da beleza: as modelos são as grandes estrelas, não os modelos;
  • na gravação das cenas, o desgaste físico das atrizes é maior que o dos atores;
  • para elas, a preparação antes de entrar em cena exige mais, com sessões de maquiagem, de foto, vídeos sensuais, enquanto o trabalho dos homens é, em tese, mais fácil;
  • há mais homens dispostos a trabalhar neste mercado do que mulheres;
  • os remédios para disfunção erétil, em teoria, facilitam o desempenho dos atores, exigindo menos da performance deles, tornando a atividade mais acessível.
Mas será que essa diferença de salário tem a ver com a ideia de que, para as atrizes, trata-se de um trabalho mesmo – que exige esforço físico e mental, com riscos psicológicos – enquanto para os atores tudo não passaria de diversão?

"A mulher também carrega um fardo maior, principalmente aqui no Brasil. Então, acho justo uma atriz ser melhor remunerada do que o ator", afirma Angel Lima, de 27 anos e mais de cem filmes no currículo. Uma das principais atrizes em atividade no país, ela é ganhadora do Prêmio Sexy Hot, o chamado "Oscar pornô brasileiro".
Outra vencedora do troféu, Fabi Thompson, de 34 anos e também com uma centena de produções, concorda: "É justo, porque neste caso a mulher é muito mais mal vista, em qualquer situação. A exposição maior é totalmente da mulher".

A atriz pornô Mayanna Rodrigues (Foto: Luiz Costa/Photografobia/Divulgação

Mayanna Rodrigues, de 31 anos e atriz desde 2005, ressalta que "a mulher acaba sendo muito ativa em cena, no caso da atuação".

"Porque ela tem que fazer várias coisas: oral, vaginal, anal... Então, o desgaste é muito maior, tanto de imagem quanto físico. Isso é aqui no Brasil e lá fora também. É um meio de o mercado manter as coisas equilibradas pela exposição."

Patrícia Kimberly, de 34 anos e atuando desde 2005 (já apareceu em mais de 50 filmes), conta que "normalmente, os atores ganham metade do cachê das mulheres". "E as atrizes fazem maquiagem, tem o 'videozinho' sensual, fotos. O ator chega lá, faz a cena e acabou."

Emme White, de 37 anos e que faz filmes há dois, acredita que as atrizes pornôs ganham mais "talvez por um resquício machista, ainda, de achar que a mulher estaria se expondo mais do que o homem".

Ainda que recebam mais que os parceiros de cena, todas reconhecem que os bons e velhos tempos ficaram para trás. Os entrevistados traçam uma linha do mercado nacional que marca o auge entre 2004 e 2007, com celebridades participando de filmes e vendas de DVDs em bancas de jornal.

O veterano Kid Bengala (à esq.), de 60 anos, entrega um dos três troféus vencidos por Yuri, seu 'sucessor', no Prêmio Sexy Hot 2015 (Foto: Eduardo Viana/Divulgação)
Kid Bengala acha 'injusto'

Considerado o maior astro brasileiro do segmento, Kid Bengala, de 63 anos, vê razões históricas para a diferença:

"Isso aconteceu lá atrás, no início das produções de filmes pornôs. Para superar as dificuldades de encontrar talentos femininos para trabalhar na área, os produtores ofereciam a elas cachês maiores que os dos homens, é claro. Pois elas viviam numa sociedade discriminatória, com tabus e preconceito contra as mulheres".

Mas ele acha que, atualmente, isso já não se justifica: "Hoje, acho injusto a mulher ganhar mais. Porque a dificuldade de o homem ter uma ereção em frente às câmeras... Para as mulheres, é só se liberarem, se descontraírem, né? Entre uma descontração e uma ereção, a dificuldade da ereção é muito maior. No mínimo, [os cachês] teriam que ser iguais".

Cachê de R$ 3 mil a R$ 5 mil

Dono da Brasileirinhas, principal produtora do Brasil, Clayton Nunes conta que o cachê das atrizes, em geral, vai de R$ 3 mil e R$ 5 mil. "Em média, é R$ 3 mil por duas cenas de sexo com um ator ou uma cena com ator e duas com mulheres, caso a modelo goste. Ou cinco cenas por R$ 5 mil".

Já os atores recebem R$ 500 pela diária. "O custo de um filme é em torno de R$ 25 mil, e o gasto com os cachês dos atores e atrizes é de mais ou menos a metade", calcula Nunes.

Por que o público é masculino?


A atriz pornô Fabi Thompson (Foto: Divulgação
As atrizes da Brasileirinhas costumam trabalhar para a produtora três ou quatro vezes por ano. Já os atores são convocados a cada duas semanas. A rotatividade feminina é exigência do público. "Quem assiste pornô, na grande maioria das vezes, é para ver a garota, e não o cara", diz Clayton Nunes, da Brasileirinhas.

Ele tem uma hipótese para explicar o motivo de seu mercado consumidor ser formado, essencialmente, por homens. "Mulher, quando quer sexo, sai na rua e consegue. Não precisa nem tomar vinho – na porta do bar, arranja alguém. Já o homem, quando quer sexo, sai para a balada, toma vários foras da mulherada na noite, chega em casa e vai assinar a Brasileirinhas (risos).”

É mais fácil achar atores do que atrizes

A atriz pornô Patricia Kimberly (Foto: Divulgação)
Dono de uma pequena produtora tocada no estilo exército-de-um-homem-só, o diretor, produtor e ator Brad Montana, de 35 anos, afirma que o fato de as atrizes pornôs ganharem mais não tem relação direta com a suposta dificuldade do trabalho.

"É até mais trabalhoso para o homem, pelo aspecto da ereção. Mas, por outro lado, se eu coloco um anúncio de emprego procurando homem para ser ator pornô e um anúncio procurando mulher para ser atriz pornô, a fila de homem vai chegar a Brasília – a de mulher não chega a um terço disso", arrisca Montana.

"Outro aspecto, é que, de fato para a mulher há uma sobrecarga muito maior, no que concerne a preconceito. Enquanto, para o ator, a galera chama o cara para pagar cerveja no barzinho da esquina e perguntar sobre gravação, a menina passa por um constrangimento de ter o portão de casa pichado, sofrer chacota de crianças... É mais pesado."

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